quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Ensinar e Aprender na Universidade.


Ensinar e Aprender na Universidade.
João Paulo Borges Coelho

IntroduçãoFoi-me pedido que trouxesse aqui ao vosso encontro uma reflexão sobre o ensino e a aprendizagem na universidade, tarefa bastante complicada por mais do que uma razão. Em primeiro lugar porque não tenho a competência dos especialistas da pedagogia e das ciências da educação, e em segundo porque não me parece que neste momento exista um só e claro retrato daquilo que é o ensino-aprendizagem nas universidades em Moçambique, e na UEM em particular. Todos temos mais ou menos ideia da realidade, mas mais que uma, talvez existam várias e diversificadas práticas de ensino-aprendizagem, consoante não só as tradições e decisões nas várias faculdades, os regulamentos em vigor, e também os diferentes “contratos” (chamemos-lhes assim) entre professores e estudantes no interior da sala de aula. Por estas duas ordens de razões, furtar-me-ei de alguma maneira àquilo que me foi pedido, propondo-me antes reflectir sobre o que me parece ser o sentido mais profundo disso a que chamamos ensino-aprendizagem, assim como sobre o contexto global na época em que vivemos e as tendências criadas para, a partir daí, podermos debater as interrogações que nos pomos, as pressões a que estamos sujeitos (professores e alunos), e as formas mais eficazes de reagirmos a elas. Para isso, temos de começar por estabelecer um entendimento comum do sentido e da importância do objecto da nossa conversa, isto é, do processo de ensino-aprendizagem. A ideia de universidade, a escolástica e o humanismoDe que falamos quando falamos de ensino-aprendizagem? Falamos, penso eu, das duas metades que constituem o todo da actividade universitária, da verdadeira razão de estarmos aqui, uns a ensinar e outros a aprender. Em cada semestre que se inicia, tenho uma nova fornada de estudantes à minha frente, na sala de aula, a quem devo ensinar e que supostamente devem aprender. No final sou eu que classifico a prestação desses alunos, atribuindo-lhes notas. Falamos, portanto, de uma relação de poder. Como em toda a actividade social, essas duas metades, dividindo o todo, instituem aquilo a que se pode chamar o cerne do poder. Assim, a relação entre quem é suposto mandar (os professores) e quem é suposto obedecer (os alunos) é classicamente a relação de poder no interior da universidade, por toda a parte.Todavia, existe bem mais que simplesmente poder, nesta relação antiquíssima e que define verdadeiramente o sentido da universidade. Por um lado, porque se trata de uma relação especial, da qual depende o sucesso ou o fracasso de qualquer universidade; por outro, porque frequentemente se verifica a interferência de mais actores do que simplesmente professores e alunos.Se recuarmos no tempo até à origem deste conceito de universidade, encontramos, uns séculos antes da nossa era, mestres gregos ocupados em aulas peripatéticas, isto é, caminhando pelas praças e debatendo questões muito variadas com os seus discípulos. Um mestre procurado por muitos discípulos era um mestre reputado, com seguidores. Além disso, se os discípulos precisavam do mestre para apender, este precisava desses discípulos para exercitar as suas artes retóricas, que, já agora, eram cinco, nomeadamente: a inventio ou descoberta dos argumentos, a dispositio ou organização desses argumentos, a elocutio ou descoberta da expressão apropriada para cada ideia (incluindo portanto o estilo), a memoria ou memorização do discurso, e finalmente a pronuntiatio ou apresentação oral do discurso em frente a uma audiência de alunos. Ou seja, se não podia haver alunos sem professor, também não podia haver professor sem os seus alunos. E se é certo que os alunos se aproximavam para ouvir o professor, não é menos certo que o que os unia – professor e discípulos – era o aprofundamento de um método de construção do conhecimento, que era o conteúdo dessa relação.Uns séculos mais tarde, por volta do século XII da nossa era, surgem na Europa medieval as universitas (que em latim significa comunidade), como em Bolonha, Cambridge ou Paris, em que mestres e alunos se agrupavam um pouco à maneira das corporações de artesãos, muitas vezes mantidas por aquilo que os alunos pagavam. Claramente, estas instituições, dotadas de cursos e exames, bolsas, lares de estudantes, associações, reitores, propinas, diplomas, graus universitários e faculdades ou colégios, são as percursoras das universidades modernas. Dedicadas ao ensino e dotadas de grande autonomia, pois como dizem os historiadores, os alvarás concedidos às universidades por papas e reis asseguravam-lhes autonomia jurídica e administrativa, não dependendo portanto nem das autoridades eclesiásticas nem seculares. Qual a razão dessa autonomia? Aparentemente, aos papas e reis interessava conhecer determinados problemas sob todos os ângulos, e isso só na universidade se podia fazer. Conhecer é poder.Estas instituições não eram estranhas ao continente africano. Os historiadores referem que a cidade de Tombuctu, no actual Mali, um dos casos mais notáveis, com 80.000 habitantes, tinha entre os séculos XV e XVII, cerca de 180 escolas e uma população estudantil de 15.000 pessoas, contando com ulemas (professores) locais de grande reputação e com frequentes visitas de sábios estrangeiros, oriundos nomeadamente do Magrebe. Voltando às primeiras universidades europeias, nelas cultivava-se a escolástica (do latim schola, ou escola) que consistia na confrontação de todos os argumentos a favor e contra um determinado tema como forma de chegar à verdade das coisas, discussão essa cuja conclusão era acompanhada de uma referência às principais autoridades sobre o assunto em causa (os médicos citavam Hipócrates, os juristas citavam Cícero ou o Código Justiniano, por exemplo, tal como os sociólogos hoje em dia citam Boudieu). A escolástica desenvolveu-se sob duas influências, nomeadamente a da herança aristotélica e a da cultura árabe (nesta altura, os árabes espalhavam-se entre a Índia e a Espanha, e desenvolviam uma cultura académica baseada na síntese que faziam das culturas da China, Médio Oriente, Irão e Bizâncio). A escolástica representa, por assim dizer, uma prática antiga de intercâmbio de conhecimentos entre mestres e, mais que isso, entre instituições universitárias. Esta relação inter-universitária ainda hoje representa um eficaz mecanismo de desenvolvimento científico e um importatíssimo factor de autonomia.A escolástica foi fundamental para o racionalismo, para o cultivo do método e para o desenvolvimento da lógica formal. Mas, por outro lado, baseando-se na autoridade incontestada de mestres e caracterizando-se por uma recusa do empirismo e da experimentação, envelheceu, tornando-se, sobretudo a partir do século XVI, alvo das críticas humanistas de figuras como Rabelais ou Erasmo.Acredito que é este humanismo construído sobre as cinzas da escolástica, apoiado na experimentação e na reflexão científica independente do poder secular ou religioso, que constitui ainda hoje o cerne da universidade e, portanto, o cerne das relações ensino-aprendizagem ao nível superior. Acredito que o humanismo é o cerne das relações ensino-aprendizagem do ponto de vista filosófico.Mas, o que é afinal o humanismo? O pensador Edward Said dizia que o que está no centro da ideia de humanismo é a noção secular (não-religiosa) de que o mundo histórico é feito por homens e mulheres, e não por Deus, e de que esse mundo pode ser compreendido racionalmente segundo o princípio formulado por Vico em A ciência nova, ou seja, de que só podemos realmente conhecer o que fazemos ou, para dizer de outra maneira, que nos é possível conhecer as coisas segundo o modo como foram feitas. É importante dizer que Vico escreveu o livro para contestar a tese cartesiana de que seria possível haver ideias claras e distintas, livres não só da mente que as possui mas também da história. O princípio das humanidades diz pois respeito à história secular, aos produtos do trabalho humano, incluindo claro, as ideias. As ideias como filhas do tempo e dos homens. E a universidade como o local onde elas são imaginadas, experimentadas, debatidas exaustivamente – numa palavra, onde são criadas num sentido académico.Neste sentido – o de serem discutidas e experimentadas as ideias – opõe-se o humanismo à escolástica da aceitação das ideias segundo o princípio da autoridade, desse emanando assim aquilo a que podemos chamar o conhecimento crítico.É importante verificar desde logo que o conhecimento crítico determina uma alteração fundamental na natureza do ensino-aprendizagem, na medida em que a atitude de questionamento permanente que faz parte da sua natureza é incompatível com uma relação de ensino-aprendizagem unidireccional em que o professor entrega o conhecimento e o aluno o recebe; pelo contrário, a relação passa a ser forçosamente bidireccional, e nela, ao ensinar o professor também aprende; e, o que é muito importante, o aluno deixa de ser um receptáculo passivo para passar a ser um agente activo na busca do conhecimento. Afinal, é este o sentido do conhecimento crítico, um conhecimento que é tudo menos passivo, um conhecimento que questiona sem cessar. É este, por definição, o conhecimento produzido na universidade desde a revolução humanista.A relação humanista de ensino-aprendizagem, além desta especificidade que lhe confere uma natureza crítica e profundamente democrática, encerra ainda outras importantes características. Uma delas é o seu cosmopolitismo, na medida em que, por um lado, isenta de preconceito e aberta à mudança, está permanentemente disposta a aceitar a novidade e o diferente; por outro lado, e esta razão é hoje, mais do que nunca, fundamental, o conhecimento está em grande medida desterritorializado, não pode mais ser circunscrito a um território, ultrapassa fronteiras locais, nacionais e, mesmo, regionais. Mais do que nunca o conhecimento é hoje universal. Outra característica ainda, já referida, é que a relação ensino-aprendizaem tem uma necessidade vital de autonomia relativamente aos poderes religioso e secular. De facto, o processo de criação de conhecimento assenta na liberdade total, no compromisso exclusivo com a razão que a criou. Isso não significa, obviamente, uma ausência de responsabilidade social de professores e alunos, pois que a própria natureza do conhecimento crítico implica que ele incida sobre questões socialmente relevantes e mesmo candentes. Consequentemente, o compromisso exterior à própria relação humanista entre professores e alunos deve ser de natureza exclusivamente ética: a necessidade intrínseca de conhecer, com isso trazendo o bem à sociedade. Por isso o sociólogo Boaventura de Sousa Santos escreve que «são os investigadores quem determina os problemas científicos a resolver, define a sua relevância e estabelece as metodologias e os ritmos de pesquisa». Tendências actuaisAs tendências actuais de evolução da relação de ensino-aprendizagem na universidade estão intimamente relacionadas com as características do tempo que vivemos à escala global, em que o mercado estende os seus braços para chegar aos espaços mais remotos e inesperados, incluindo, claro, a universidade. O mercado está em toda a parte. Um dos resultados mais imediatos, no que nos diz respeito, parece ser a marginalização da universidade. O sociólogo Boaventura de Sousa Santos diz que «a perda de prioridade da universidade nas políticas públicas do Estado foi, antes de mais, o resultado da perda geral de prioridade das políticas sociais (educação, saúde, previdência) induzida pelo modelo de desenvolvimento económico conhecido por neoliberalismo ou globalização neoliberal que, a partir da década de 1980, se impôs internacionalmente». Mas não reside apenas no negligenciamento da universidade pública a transformação operada no contexto neoliberal. Há também um processo correlacionado de constituição do mercado do ensino superior, com um impacto profundo na relação ensino-aprendizagem em mais do que uma instância. Masao Miyoshi afirma, em relação à universidade americana no século XX, que ela se tornou uma corporação e que foi anexada pelos interesses militares, médicos, biotécnicos e outros, muito mais inclinados a financiar projectos nas ciências naturais do que nas humanidades». Em resultado, o espírito humanista, traduzido por exemplo na investigação crítica de valores, da história e da liberdade, ocupa um espaço cada vez mais marginal.Este processo é ainda mais acentuado e grave em países periféricos, como na generalidade do continente africano, onde a fragilidade do mercado, a escassez de recursos, e a existência de muitas outras prioridades, remetem a universidade para uma espécie de limbo e, no caso das universidades públicas, ditam muitas vezes, simplesmente, a sua sentença de morte, ou pelo menos a sentença de uma lenta agonia. No caso de tantos regimes autoritários pelo mundo fora, diz-nos ainda Boaventura de Sousa Santos, este é um excelente pretexto que os regimes encontram para «reduzir a autonomia da universidade até ao patamar necessário à eliminação da produção e divulgação livre do conhecimento crítico». DesafiosEvidentemente, a partir daquilo que acabo de dizer, é possível descortinar importantes desafios que temos pela frente no nosso caso e neste momento. O principal desafio, penso eu, é como fortalecer a fragilizada relação humanista actual no ensino-aprendizagem, no contexto de mercantilização crescente e agressiva do ensino superior, como manter uma relação que negue a mera transmissão de um suposto conhecimento entre fornecedor e cliente num contexto comercial, para a encarar como uma relação da qual resulta efectivamente formação e criação de conhecimento. O mercado, é preciso ter a coragem de o dizer, está longe de ser um fim em si. O mercado não passa de um instrumento para a felicidade das sociedades, essa sim um fim.Em palavras mais simples, como evitar que a relação ensino-aprendizagem se resuma a uma relação em que o professor fornece mecanicamente conhecimento morto, e em que o aluno busca unicamente a obtenção de um diploma.Um segundo desafio poderá ser como a massificação do ensino superior (que é em si uma importante e necessária conquista) pode ser mantida sem que se sacrifique precisamente a relação ensino-aprendizagem que aqui se defende.Na universidade ensinam-se tecnologias, biomedicina, ciências naturais e sociais, mas uma universidade só é universidade se nela habitar o espírito humanista. Foi ele que presidiu à fundação da ideia de universidade, é dele que depende a sobrevivência dessa ideia. E a sobrevivência do espírito humanista, produtor do conhecimento crítico, joga-se sobretudo nas relações entre professores e alunos, no processo de ensino-aprendizagem.
Fontehttp://movimentohumanista233.blogspot.com/2007/11/ensinar-e-aprender-na-universidade.html

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