sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Cinema e Psicanálise



Cinema e Psicanálise
Por Juliana Psaros*
Acaso ou não, o Cinema e a Psicanálise tiveram seu nascimento praticamente ao mesmo tempo. O final do século XIX, apresentava à humanidade duas formas distintas, porém de alguma maneira bastante semelhantes, de articular o universo científico ao irracional, mágico, o universo da fantasia. Se por um lado o Cinema se utilizava de novas tecnologias ópticas para ampliar o olhar, para operar no universo do fantástico, para construir uma ilusão encantadora, por outro a Psicanálise passava a criar um olhar para ver o que há dentro, observar além do corpo, procurava então desvendar a alma humana, olhar para o que há de irracional dentro do homem, dar-lhe nome, enfim, construir um olhar científico ao que não opera logicamente. Ambas então nascem desse curioso paradigma, muito presente nesse período histórico, da união da ciência e da irracionalidade.Sabe-se que a relação que Freud teve com a então novidade cinematográfica foi um tanto silenciosa. Ao contrário dos atuais psicanalistas Freud não via, ou via com maus olhos, a relação Cinema & Psicanálise. O rompimento desse silêncio se deu justamente para criticar a dita relação, quando o Cinema procurava aproximar-se dela; Samuel Goldwin chegou a oferecer-lhe uma grande quantia em dinheiro pedindo autorização para realizar um filme sobre a psicanálise, o que não foi aceito por Freud; o cineasta Pabst buscou também se aventurar por essas questões e contou com a colaboração de dois de seus discípulos (Hanns Sachs e Karl Abraham) para a elaboração do filme Segredos de uma alma (1926), o que gerou entre Freud e seus discípulos um grande embate. Para Freud a linguagem das imagens cinematográficas jamais conseguiriam representar conceitos tão abstratos como os da Psicanálise. Tal olhar para o Cinema nos mostra um Freud um tanto platônico, acreditando que a "idéia" ou a relação com os conceitos abstratos se dá necessariamente pela linguagem verbal, o que permanece ainda hoje na maioria dos processos da psicanálise clínica onde a comunicação psicanalista & paciente se dá fundamentalmente pela linguagem verbal e sua interpretação, também verbal.Em relação a produção cinematográfica, o diálogo Cinema & Psicanálise está presente desde os seus primórdios. As obras de Meliés que diante de um breve olhar nos parecem nada mais que extraordinários efeitos especiais e histórias fantásticas estão repletas de conteúdo psicanalítico. Não se trata de questionar uma intenção racional para isso, aliás, poderíamos afirmar que tratando-se de arte, o diálogo criador & observador se dá entre mundos inconscientes, racionalizados pela técnica artística e pelo olhar, mas substancialmente construídos a partir do universo do inconsciente e reabsorvidos pelo observador/espectador a partir do mesmo. De maneira mágica e fantasiosa Meliés constrói um jogo de mostrar enquanto oculta, porém de uma maneira que as estruturas da psique compreendem muito bem. Pierre Jenn em seu texto "Le cinéma selon Georges Meliés" observa uma passagem curiosa no filme "Eclipse de soleil en pleine lune" (1907), quando o sol passa por detrás da lua e, digamos, ambos se envolvem em gozo sexual; ao mesmo tempo o astrônomo que observa o "eclipse" inclina-se para observar melhor a cena, não bem apenas o eclipse puro, e cai pela janela. Jenn observa que o sol e a lua seriam "metamorfoses do pai e da mãe", praticando o "coito" e o astrônomo "espiando pelo seu telescópio (versão transformada desse instrumento emblemático da escopofilia: o buraco da fechadura), não está revivendo nesse pequeno filme o fantasma da cena primitiva, essa cena que se passa en pleine lune, como diz o título?" Aliás, o Cinema não é muitas vezes ele próprio "o buraco da fechadura"? Meliés mostrava, numa linguagem que o inconsciente capta, aquilo que de fato não poderia ser mostrado naquela ocasião. Meliés mostrava as caras do desejo mascarando-as.Se Freud absteve-se de qualquer comentário reflexivo em relação ao Cinema o mesmo não ocorreu com todos os psicanalistas da época. Lou Andreas Salomé (discípula de Freud, mulher de Rilke, amor de Nietzsche, mas tudo isso não vem ao caso) em 1913 já escrevia que " a técnica cinematográfica é a única que permite uma rapidez de sucessão de imagens que corresponde mais ou menos às nossas faculdades de representação". A partir da frase de Salomé adentremo-nos às similaridades presentes entre o paradigma cinematográfico e o psicanalítico. Freud, apesar de sua posição distante em relação ao Cinema, inevitavelmente faz com que o aproximamos muito dele quando ele explica o sonho. Para Freud o sonho é composto por imagens produzidas pelo inconsciente que contam a história do desejo do sonhador. Durante o sonho o sujeito não consegue discerni-lo da realidade, o que para Freud se dá devido ao fato de que todo o nosso sistema motor está momentaneamente paralisado. Mais claramente Freud explica que realizamos a distinção entre as "representação mentais" e a "percepção" através da ação (motora). Se através dela podemos alterar a realidade trata-se então de uma percepção, logo real, ao passo que, se não a podemos trata-se de uma representação mental, logo fruto do interior do corpo, portanto não real; a esse mecanismo Freud denomina "prova de realidade". Durante o sonho o indivíduo encontra-se momentaneamente paralisado, portanto incapaz de realizar tal prova.Vejamos...Ao assistir a um filme no cinema o espectador está de certa maneira muito próximo dessa situação sonho; seu corpo encontra-se geralmente entregue à poltrona, o silêncio é absoluto (ou espera-se que o seja), a escuridão e toda a estrutura espacial do ambiente o impelem ao mergulho na tela de luz (ou será de sombras?). A experiência do cinema, ou a "situação cinema" (termo cunhado por Hugo Mauerhofer) em muito se aproxima da "situação sonho" citada acima, claro que, ao contrário do sonho, o indivíduo sabe que aquilo não é real, mas por alguns instantes evita e muitas vezes consegue não sabê-lo (apesar de que por outro lado essa relação ilusão x realidade colabora ainda mais para a intensidade da experiência do cinema, pois sabendo que o que se passa na tela não é real se sente livre para vivê-lo como assim o fosse sendo que dessa maneira não sofre as eventuais consequências da realidade, como acontece também muitas vezes no sonho). Também sabe que pode sair dali a qualquer momento, não está paralisado como no sonho, portanto incapaz de realizar a "prova de realidade", mas mesmo assim sugestiona-se paralisado, pretende-se dessa maneira, e, sem dúvida, realiza algo muito próximo ao sonho; não se pode dizer que a experiência do cinema exista plenamente no estado de vigília, e deixar de perceber que ela opera de maneira bastante semelhante ao mecanismo do sonho.Como no sonho o espectador se envolve na trama tanto no papel de observador como de observado, pode tanto assumir a subjetividade da câmera quanto a de um ou mais personagens, a linguagem cinematográfica propicia tal identificação através dos diferentes planos, ou seja, além de toda a atmosfera criada no espaço-cinema, o espaço-fílmico também induz o indivíduo a vivenciar a "situação cinema" de maneira profundamente real e ao mesmo tempo (e também por isso) onírica. A experiência do cinema está entre o observar o outro pelo "buraco da fechadura" e o se observar através do outro (projeção). Curioso é que o sonho para a psicanálise se dá de maneira bastante semelhante. Muitas vezes no sonho somos aquele que observa, ou somos dentro de outro alguém ou algo, podemos no mesmo sonho ser agente, objeto e observador, o que ao olhar da psicanálise irá sempre representar o Eu do sonhador, mascarado por seu inconsciente, porém sempre se referindo ao indivíduo, sendo sempre ele quem desempenha o papel principal. A mesma multiplicidade de perspectivas se dá no filme, diante a sua variabilidade de ângulos, o olhar da câmera, o plano subjetivo, permitindo ao espectador "assujeitar-se" em inúmeras possibilidades.Claro que esse sonho-cinema se apresenta aos olhos abertos dos seus espectadores e não durante o sono, quando eles estão fechados; apesar de tudo o que já foi dito quando estamos diante da "situação cinema" estamos seguramente acordados e próximos do nosso universo racional, e portanto, nesse sentido, tal situação difere do sonho. Porém, quando tomamos consciência que estamos sonhando? Quando atribuímos significado às imagens do nosso inconsciente? Seguramente não durante o sonho. É justamente no estado de vigília, quando o consciente, segundo a psicanálise, desperta e impera sobre o inconsciente que podemos saber que estávamos sonhando, e portanto somente a partir daí que o sonho passa a existir; uma exemplificação banal desse fato se dá ao sabermos que seguramente sonhamos todas as noites e nem por isso ao despertar temos a lembrança dos nossos sonhos, estes permanecem no universo do inconsciente e não temos acesso, pelo menos não de maneira consciente, a eles. Ou seja, a relação que estamos estabelecendo aqui entre "situação cinema" e "situação sonho" se constrói da maneira que podemos nos relacionar com eles, ou seja, através da intermediação do consciente.Lou Andreas Salomé também afirmou que "o futuro do filme poderá contribuir muito para a nossa constituição psíquica". Certamente o Cinema contribui para isso, de uma maneira muitas vezes assustadora. Felix Guattari afirma em seu texto "O divã do pobre" que "o cinema transformou-se numa gigantesca máquina de controlar a libido social". A indústria cinematográfica realmente exerce uma "docilização" das massas surpreendente, certamente maior que as escolas, as fábricas, os manicômios, enfim maior que todas as "instituições totais" assim chamadas por Foucault, que curiosamente têm o seu nascimento, ou racionalização, no mesmo período que o cinema. A eficiência do controle social através do cinema casa perfeitamente com a lógica capitalista, pois trata de "domesticar" as massas sem realizar qualquer confronto, ou melhor, realiza o controle através da venda barata de sonhos, comportamentos, objetivos, modelos, e, principalmente, desejos. É como se ao invés de nos projetarmos na tela ela se projetasse sobre nós; podemos até afirmar que hoje o cinema não só contribui, mas que muitas vezes constrói a nossa constituição psíquica. O desejo então encontra-se configurado, embalado, coletivizado, e, controlado.Certamente, o Cinema hoje é o nosso grande criador de mitos coletivos, e todos os processos descritos nesse texto que propiciam ao espectador uma experiência muito mais que visual contribuem para isso. A indústria cinematográfica tem construído uma, por que não, cosmologia um tanto questionável, onde os mitos individuais devem enquadrar-se nos mitos construídos arbitrariamente pelos valores dominantes, que não correspondem as necessidades e desejos psicossociais de cada indivíduo. Porém, por o cinema dialogar de maneira tão profunda com a nossa constituição psíquica pode ser um grande modificador dos paradigmas que ele ajudou a estabelecer. A partir disso, construiria então um novo paradigma? Qual critério poderia se utilizar para saber se esse novo seria melhor ou pior? Não se criariam novos estereótipos, portanto novos modelos, novos mitos coletivos que se sobreporiam aos individuais? Talvez a criação de modelos seja algo humano...demasiado humano, e o cinema apenas ocupe em nossa sociedade o papel que já foi dos poetas, dos anciões, e de tantos outros que pela a história passaram transmitindo os mitos de uma cultura.Acaso ou não, Cinema e Psicanálise nasceram no mesmo período e me parece que seguiram e seguirão suas trajetórias dialogando incessantemente.*Juliana Psaros é aluna de cinema da FAAPData de publicação: 05/08/2002

Nenhum comentário:

Postar um comentário